9 de mar de 2011

Fãs Artistas - Júlio Santos

Júlio Santos, nosso amigo leitor, nos enviou este texto sobre sua vida e os Novos Titãs, além de alguns desenhos. Obrigado, Júlio. Seu texto realmente é muito tocante, reafirmando a ligação que o grupo tem com o aspecto familiar de cada um.

"Achei interessante ver no site uma nota, outro dia, informando que a MTV agora fazia algo também relacionado aos quadrinhos, tendo em vista que em uma das últimas vezes que eu escrevi para o site, estava comentando justamente sobre isso, sobre como “é legal” hoje se curtir HQ’s.

Antes de mais nada, deixa eu me apresentar:

Meu nome é Júlio Santos Aragão, tenho 29 anos, carioca, e super fã dos Titãs!!

Tá, tá, “soou” super gay, mas fazer o que, né? Adoro o Titãs, até porque toda uma fase muito legal da minha vida, girou em torno desse gibi. Geralmente quando um velhaco fala isso, a gente logo pensa: “Ah, mais um saudosista, solteirão, branquelo, gordo, espinhento e sabendo tudo de computador...”

Pô, vou te falar que eu fujo desse estereótipo: Sou saudosista sim, mas sou negro, tatuado, tenho 1,80m, 102 quilos, quase casado, lutador de Jiu Jitsu, pareço mais um pitboy do que um cara que curte quadrinhos. Mas, calma, eu sou gente boa! E além das redes sociais, não saco nada no computador!! Tanto que eu estou levando uma surra do PhotoScape...

Hoje o que eu quero é ousar mais! Não só lembrar da minha infância, mas colocar aqui qual a ideia dos Titãs na minha vida!

Na minha época de moleque (modo coroa on), ler gibi te fazia ser o último a ser escolhido nos esportes, não conseguir nenhuma gatinha e ser visto como o esquisitão. Era difícil ver alguém que gostasse de revistinha, mais difícil ainda achar quem o apoiasse. Às vezes, nem em casa se tinha esse apoio, ainda mais se o seu irmão era “o popular”. Mas enquanto muita gente se entristecia por isso, eu agradecia a Deus, pelo maior apoio que Ele podia ter me dado: Minha mãe!

Ela podia não admitir, mas ela era uma nerdizinha muita sem vergonha. Por várias vezes, arrumávamos a casa e achávamos uma raridade. Só pra listar, ela tinha, em quadrinhos, a biografia autorizada de Karol Wotjyla, o Papa João Paulo II, e, um marco das HQ’s: Superman vs. Mumhamad Ali!

Daí, né, já viu... O sangue falou mais alto!

Lembro que a primeira HQ séria que eu li foi Novos Titãs 49, da antiga editora Abril, onde se encontrava duas histórias da Turma Titã. Eu tinha nove anos e, na capa estavam presentes Robin e a Moça Maravilha, que eu confundi com a Mulher Maravilha, e, como adorador do desenho dos Superamigos, ainda mais naquela fase em que tinha o Nuclear e o Cyborg, pedi pra minha avó comprar pra mim, depois da Missa dominical.

Confesso que li, gostei um pouco, e na edição seguinte – NT #50 - rolou a história do Asa Noturna e Ricardito, em Londres. Lembro de ter implorado a minha mãe pra comprar, e, pra minha surpresa, um dia ela foi ao Centro da Cidade, e voltou com a revista. Li, reli, enchi o saco do meu irmão, falando que eu era o de azul, que batia pra caramba, e ele mais novo, era o vermelho, o frouxo! Aí sim, me tornei fã. Levei a revista pra escola, mostrei pra todo mundo, três pivetes ainda tentaram roubá-la de mim, e, mesmo sabendo que ía levar aquela surra, encarei e o máximo que eles conseguiram, foi rasgar a capa.

Dali eu já estava fisgado, né? Logo depois, se não me engano, veio a saga em que o Gnu controlou o Cyborg, consegui conhecer o resto da equipe, e me tornei o mais nerd da minha “tchurminha”. Daí, surgiram várias dúvidas, porque eu já conhecia um catatau de personagens, mas quando alguém citava algo ocorrido antes da edição #49, eu boiava, tipo o casamento da Kory, quem era o Irmão Sangue, a saga de Trigon, etc.

Nisso, eu já tinha meus 12 anos, já estava com a cabeça cheia de perguntas, e perdi a minha avó, atropelada. Como ela era a pessoa quem me criou, devido à minha velha trabalhar muito pra nos sustentar, era ela que me comprava as revistas e fazia as minhas vontades. Foi difícil e eu não queria mais ler Hq’s (eu já lia quase todas as HQ’s da DC). Nessa época também, minha mãe foi obrigada a ir, toda sexta-feira fazer um curso no Centro da Cidade, e pra minha surpresa, ela achou vários sebos com quase toda a coleção dos Titãs. Na primeira vez que ela trouxe, ela me falou que eu não tinha que me revoltar, nem parar de ler, até porque ela leria comigo, a partir daquele momento.

Voltei ao vício, semanalmente recebendo minhas edições antigas, e mais ou menos um ano depois, veio a saga do Gnus e minha velha devorou comigo. Lembro que ela adorava o Cyborg, por ser um dos poucos personagens negros autênticos das Hq’s e, da raiva que ela sentiu quando ele foi explodido em um foguete...

Que revolta! A gente discutiu por horas o ocorrido, e esperamos ansiosos até o final. Nessa mesma época, a nossa vida deu uma reviravolta financeira, e meio que ela parou de ler comigo.

Acabou que eu também me afastei um pouco dos Titãs, pelas histórias modorrentas que vinham sendo apresentadas, comecei a ler outras coisas. Até, chegar o dia 03/03/96, meu aniversário, onde pra minha surpresa, ela chega em casa com a edição do casamento do Dick e da Kory.

Que surpresa!! Ela lembrou dos Titãs!! Lembrou do seu filho!! E mesmo sem poder, ela ainda leu comigo.

Sempre adorei isso nos Titãs... Essa sensação de união que um gibi proporciona! Até quando eu comecei a baixar as Hq’s, ela ficava até tarde, lendo comigo, isso já há pouco tempo.

Infelizmente, em fevereiro último, ela teve um infarto e veio a falecer. Perdê-la foi a maior porrada que eu já levei na vida. Até agora, 6 meses, depois ainda sofro, sonho com ela, acordo chorando, e mal tenho vontade às vezes de se fazer algo que eu gostava, como ler os Titãs.

Mas daí, noutro dia, mexendo nas minha revistas velhas, achei Novos Titãs 3 (Tales of New Titans, sei lá o número), que contava a origem do Gar e da Kory, com uma dedicatória dela, falando pra eu nunca desistir de nada... Ela achou essa edição num sebo, logo depois que a minha avó se foi, e resolveu me presentear...

Então, acho que já deu pra imaginar o valor dos Titãs na minha vida, né? Não sou daqueles fanáticos que ficam com discussões filosóficas do tipo: “quem é mais forte? O Batman ou o Superman?”.

Tenho plena e total consciência de que todos eles são personagens de ficção. Só sei que, em algum momento, essa ficção juntou mais ainda um filho e uma mãe, que nas piores adversidades, passavam tardes lendo gibis, compravam revistas juntos e, nos poucos momentos em que não discutiam, se abraçavam mais ainda, lendo Novos Titãs!

Junto a meu texto, envio alguns de meus desenhos. Quase ninguém fala dessa fase dos Titãs,aonde o Cyborg e o Mutano estavam lutando contra o Mento,o Dick e a Ravena estavam presos na Igreja do Irmão Sangue, a Kory casada em Tamaran, e, sozinha a Moça Maravilha da época teve que atender um chamado do governo, e, deseperada, chamou a antiga Turma Titã. Deixei esse tom de foto mofada pra acrescentar que esse seria um período perdido dos Titãs.



Agora as explicações sobre cada um:

Aqualad - Tinha acabado de perder a Tula e não sabia mais o que fazer, coloquei uma calça nele também, até porque ninguém merece morrer de tristeza de sunguinha no Ártico. Por isso o olhar triste dele...

Moça Maravilha - Seus amigos debandaram, seu casamento em frangalhos, enfim, o mundo nos seus ombros. Por mais forte que ela seja, Donna também é a mais carinhosa entre todos, impossível não chorar!

Rapina - Cara, esse deu trabalho... Não por ser brabo de desenhar, mas porque, por mais que eu colocasse o traje nele, acho eu que não conseguiria demonstrar todo o caos dentro dele. Como o Garth, ele estava lidando com a sua perda (Columba), mas, diferente do seu colega, o caos o estava consumindo! Agradeço também ao seriado Shikenger quem me deu a inspiração pros seus olhos, essa confusão aí!

Robin II - O Jason era violento, e por isso, sempre tinha alguém o podando. Agora, imagina ele no meio do nada, sem dever satisfação a ninguém, no auge dos anos 80 e seu cinema mandando no quesito "Guerra". Por isso, a calça camuflada, os suspensórios, etc;

Ricardito - Na saga que se descobre o rolo que ele tinha tido com a Lince, seus amigos não podiam saber, até porque, meses antes, ela havia quase matado os Titãs, junto com outros agentes do Antimonitor, então, essa desconfiança toda!

Espero que gostem!"

Um comentário:

Cássio disse...

Ótimo texto, (ri demais) bons traços, diferente, ousado. Maravilhoso trabalho.
Já pensou em ser argumentista também, além de desenhista?
Vce tem futuro.
Parabéns.