6 de mar de 2011

Contos dos Novos Titãs


"O Reflexo de Dick Grayson".
Por Rodrigo Garrit

Estou começando a me lembrar...
Conheci essa garota... o nome dela era Debbie. 19 anos, viciada em heroína. A prostituição era apenas uma extensão do vício. Na noite em que eu... acordei... ainda desorientado, devo ter passado algumas horas vagando pelos becos escuros da cidade. Eu não fazia ideia de quem eu era. Estava exausto... e dentro de mim sentia uma tristeza tão grande que poderia ser capaz de me matar.. mas por algum motivo errado da natureza eu ainda estava respirando.
Foi então que vi Debbie, seminua, lutando contra dois "clientes" insatisfeitos... pensando bem, agora não consigo me lembrar se ela estava se defendendo deles ou se era o contrário. Depois disso, tudo foi muito rápido e natural. Eu me vi imobilizando os rapazes, enquanto ela me olhava assustada e ao mesmo tempo obscenamente interessada. Quando os dois estavam inconscientes a meus pés ela veio a mim e me abraçou com força. "Obrigada, Zorro", ela sussurrou. Eu não entendi naquele momento, mas o som dessa palavra me remeteu a algo tão familiar... Só que eu estava exausto demais. Desmaiei.
Acordei no apartamento de Debbie e ainda era noite. Depois ela apareceu e disse que eu dormi o dia inteiro. Eu estava usando roupas dois números acima, mas segundo ela, eram melhores do que aqueles "trapos velhos, rasgados e coloridos" que eu usava. Ela me entregou uma xícara rachada de café forte e perguntou há quanto tempo eu estava "nessa vida". Com a ponta dos dedos ela me mostrava uma máscara negra que eu estava usando na noite anterior. "Lindo desse jeito nem precisava tanto fetiche" ela despejou com um falsete na voz e um olhar que parecia me enxergar por dentro.
Eu apenas tossi de volta. Mergulhei o café amargo na garganta e voltei ao travesseiro. Precisava me concentrar e entender o que estava acontecendo.
Debbie me acordou bruscamente. Eu havia dormido de novo, não sei por quanto tempo dessa vez. Ela estava muito assustada e falava muito rápido... eu não conseguia entender nem uma palavra. Fixei meu olhar no batom borrado em seus lábios. Era de um vermelho vivo e brilhante. Conforme minha mente clareava, vi que a mesma tonalidade estava impregnando suas mãos e roupas. Era sangue, mas não o sangue dela. Então a porta da frente foi derrubada numa explosão de fúria. Três homens armados invadiram o quarto e eu sabia só pelo seu olhar que sua intenção não era deixar nenhum de nós vivo.
Naquela hora, algo despertou em mim. Agarrei Debbie pela cintura e voei com ela pela janela.
“Voar”, obviamente, é apenas força de expressão. Estávamos no quarto andar e havia uma pequena marquise em péssimo estado de conservação que não suportou nosso peso. Caímos rumo à morte certa, quando meu braço direito inclinou para cima, enquanto o esquerdo prendia firmemente o corpo de Debbie junto ao meu. Então agarrei uma grade de proteção da escada de incêndio do andar de baixo. Senti meus tendões estourarem, mas aguentei firme, girei o corpo e com a agilidade de um gato, nos joguei na marquise seguinte do andar de baixo até alcançarmos o chão, como se isso não fosse insano... como se não fosse algo impensável.
Ainda tínhamos alguns momentos, os homens armados esperavam encontrar cadáveres e não dois sobreviventes a uma queda dessa altura. Estávamos num beco sem saída, com uma mureta bloqueada por um caminhão de lixo e várias caixas de papelão espalhadas. Empurrei Debbie para detrás de uma coluna do prédio adjacente... não era o melhor esconderijo do mundo, mas pouca proteção é melhor do que nenhuma proteção.
Os homens chegaram ensandecidos, pulando como animais pelas escadas de emergência do prédio. Antes de nos virem já estavam atirando. Eles queriam o nosso sangue, mas eu já esperava por isso.
O primeiro deles descarregou cinco das seis balas que sua pistola suporta num amontado de papelões que ele acreditou ser nosso esconderijo. Antes de dar-se conta de seu erro, já estou fraturando seu braço e causando uma luxação em sua perna esquerda. O segundo e o terceiro chegam quase que ao mesmo tempo. Atinjo a testa de um deles com a arma do primeiro homem com força suficiente para atordoá-lo, em seguida colocando-o para dormir com um golpe de Aikidô. A arma ainda tinha uma bala... mas por alguma razão que não compreendo,  balear qualquer um deles é algo inaceitável. Quando então fico na mira do terceiro homem, olho fixamente dentro de seus olhos por alguns segundos. Não sei dizer o que ele viu refletido em minha retina, mas sua hesitação foi o suficiente para que num átimo meu pé estive em sua garganta.
Ao ver os homens inertes, eu cometo o erro de fechar os olhos, respirar fundo e relaxar. Quando dou por mim, Debbie está com a arma do primeiro homem nas mãos. Aquela que ainda tem uma bala. Ela está mirando em mim.
"O-Olha... me perdoa... não sei que tipo de tira ou ninja você é... mas eu não posso deixar você me levar para..."
"Calma, Debbie. Abaixe essa arma e vamos conversar. Eu... acho que não sou tira ou ninja... não sei quem eu sou, na verdade. Mas aconteça o que tenha acontecido, nós podemos resolver juntos... eu posso te ajudar se você deixar..."
"EU SOU UMA ASSASSINA! Esses... esses homens só queriam vingança... eu matei o Rupert... Rupert! Que nome idiota pra um inglês metido a besta. Ele era meu cafetão, e também meu traficante. Acontece que eu devia dinheiro demais pra ele entende? E-Eu... não queria essa vida, sabe? Eu juro... Ainda mais agora que descobri que... estou grávida... desta vez eu gostaria de tentar... de ter esse filho, entende? Mas ele não ia aceitar isso... ia me obrigar a tirar a criança... de novo... eu... eu não poderia...".
O discurso de Debbie foi interrompido pelo som do tiro disparado por um dos homens no chão, que alvejou a pobre moça. Tarde demais, eu chuto a arma para longe e piso em sua mão quebrando seus dedos. Tarde demais...
Era o fim de Debbie... seu filho... uma família destruída em um beco escuro por um único disparo de arma de fogo.
Uma chuva fina começou a molhar meu rosto e a restaurar minha memória...

CONTINUA...


Para ler a conclusão, clique AQUI

3 comentários:

Tarcísio Aquino disse...

Muito bom.. Curioso, curioso para o seguinte capítulo.

Weber Carvalho disse...

Garrit, parabéns pela intensa carga dramática do texto! O Dick sempre mereceu uma história assim: aonde ele, Dick Grayson, é o personagem central! Sem máscaras ou codnomes! Seja Robin, Asa Noturna ou Batman... Dick Grayson é homem que cativou toda uma geração c/ suas dúvidas e inquietações! Ele criou uma tendencia e uma lenda! E você honrou o personagem c/ esse instigante texto! Show de bola!

Garrit.................! disse...

Obrigado meus amigos... fico feliz que tenham gostado, e fico muito lisonjeado com os elogios. Escrevi isso com o coração e espero que todos se divirtam.
Abraços!
P.S.: Já postei a continuação!