10 de set de 2008

Tirando Leite de Pedra

Dentre todas as coisas vistas na nova série Titans, nenhuma me desagradou mais (até agora) do que a conexão sem-sentido dos filhos de Trigon com os Sete Pecados Capitais (ou melhor dizendo, com três dos Sete Pecados). Caracterizações mal-feitas, diálogos fracos, histórias ruins... tudo isso é passageiro. Conceitos mal-trabalhados e plots incoerentes? Isso dura para sempre (ou até ser desconsiderado).

Então, apenas por farra e sem grandes pretensões, eu tentei criar uma explicação plausível para a conexão de Trigon e seus filhos - incluindo Ravena - com os Sete Pecados Capitais. Após ler textos de antigas revistas escritas por Marv Wolfman, acho que encontrei algumas brechas que permitiriam fazer isso de uma forma que não parecesse muito forçada. Mas vejam por si mesmos e julguem se a minha proposição é aceitável ou não.

Primeiro Tópico:
Azarath e Os Sete Pecados Capitais


Ao contrário do que muitos pensam, o conceito de Sete Pecados Capitais (ou Sete Defeitos, ou Sete Vícios...), não surgiu no catolicismo, estando presente em diferentes crenças, antigas e modernas (a Alquimia Medieval e o Zoroastrismo são exemplos). Deste modo, não é difícil conceber que esses arquétipos também estivessem presentes nas crenças dos monges de Azarath. Eu não entendo o suficiente sobre Ocultismo para dissertar sobre o assunto, mas autores como Neil Gaiman ou Grant Morrison certamente fariam a festa.

Falando disso, Azarath praticamente implora para ser escrita por Grant Morrison. Imaginem só: um grupo de místicos pacifistas (e vegetarianos) que, desiludidos com os rumos que a humanidade está tomando, decide abandonar o planeta Terra e constituir uma sociedade alternativa numa cidade que foi construída num ponto de encruzilhada entre as dimensões. Tem coisa mais "Grant Morrison" do que isso? Até aquele céu vermelho que aparecia às vezes lembra a Sangria.

Segundo Tópico:
Trigon e os Sete Pecados
Capitais

Antes de falar desse assunto, recordemos um pouco sobre a história do surgimento de Trigon.

"Trigon veio a existência centenas de anos atrás, quando um grupo de humanos abandonou a vida na Terra e estabeleceu um secto de pacifistas no mundo interdimensional de Azarath. Abraçando o conceito de paz, estes humanos exorcizaram de seus corpos os desejos sombrios de suas almas e os enviaram além do Grande Portão de Azarath, rumo aos reinos inferiores. Estas energias malignas resultantes flutuaram através do espaço durante anos antes de finalmente concentrarem-se em uma única forma física. Os últimos habitantes de um mundo alienígena invocaram estas trevas do éter e engravidaram uma mulher. Nove meses mais tarde, Trigon nasceu".
Fonte: DC Database

É muito fácil pensar nos Sete Pecados Capitais como os "desejos sombrios da alma" que os Azarathianos "exorcizaram de seus corpos", afinal é justamente isso que eles representam em sua concepção mais conhecida. Além disso, os Pecados Capitais muitas vezes são vistos como a síntese de todos os males que habitam os corações dos homens (embora existam outras visões sobre a natureza deles).

Também não é difícil pensar em Trigon como uma criatura composta por esses sentimentos. Cobiça, Inveja e Gula resumem sua sede conquistadora, de dominar totalmente uma dimensão, sobrepujar todos os seus habitantes e em seguida partir pra próxima. Vaidade foi desde sempre sua principal característica, tanto pela sua necessidade de ter a todos lhe servindo e lhe adorando, quanto pela sua grande arrogância e pelo desejo de possuir um herdeiro para governar ao seu lado. Ira é demonstrada facilmente através de seu temperamento violento, vingativo, sádico e sanguinolento. Luxuria... bem, essa fala por si mesma e exemplos não faltam.

O ponto mais difícil de justificar é a Preguiça. Sua índole escravagista é um começo, mas talvez possamos atribuir a isso também a faceta manipuladora e astuta de Trigon, agindo por trás dos panos, movendo as peças, usando intermediários e conduzindo o curso dos eventos durante anos (ou mesmo séculos) antes de finalmente se mostrar. Agir pessoalmente poderia ser sempre seu último recurso.

Terceiro Tópico:
Os Filhos de Trigon e os Sete Pecados
Capitais

Antes de tudo, precisamos estabelecer o seguinte: os filhos de Trigon não são as encarnações, incorporações, avatares ou manifestações físicas de nenhum dos Sete Pecados. As verdadeiras encarnações dos Sete Pecados encontram-se aprisionadas na Pedra da Eternidade, sob a vigilância constante de Marvel (Billy Batson, antigo Capitão Marvel, que assumiu o posto do falecido Mago Shazam).

Dito isto, lembremos de que todos os filhos de Trigon (incluindo Ravena) carregam uma conexão com seu pai. Por extensão, eles também estariam conectados aos próprios Pecados Capitais. Não apenas a um Pecado, mas a todos os Sete.

Lembram-se de que, em Azarath, Ravena foi ensinada a controlar as suas emoções com o objetivo de suprimir e controlar seus poderes natos, para que seu lado demoníaco jamais assumisse o controle? Consideremos então que esse "lado demoníaco" seria sua conexão aos Pecados e se ela manifestasse emoções, acabaria dominada por algum deles. O exemplo mais óbvio é que sentindo raiva ela poderia ser dominada pelo Pecado da Ira, mas existem inúmeras outras possibilidades: sentir amor poderia impeli-la na direção da Luxúria ou da Vaidade, sentir tristeza poderia abrir caminho para a Preguiça ou Inveja... e assim por diante.

Mas os meio-irmãos dela não foram criados em Azarath, nem aprenderam a suprimir suas emoções. Dessa forma, eles acabariam cedendo a seus lados demoníacos e cada um seria dominado por um Pecado Capital. Jacob pela Luxúria, Jared pela Ira e Jesse pela Inveja. Eles poderiam ter sido dominados por Pecados diferentes destes, ou dois deles poderiam ter sido dominados pelo mesmo Pecado, mas esta foi simplesmente a forma como as coisas aconteceram, provavelmente como conseqüência da história de vida de cada um deles (algo que poderia e deveria ser explorado em suas personalidades). Isso anula a pseudonecessidade de outros filhos de Trigon representando outros Pecados.

Devido ao seu treinamento em Azarath, Ravena teria desenvolvido suas habilidades empáticas de forma bastante refinada, podendo manipular emoções diversas de diferentes formas (incluindo a cura de ferimentos e a projeção de ilusões). E por sempre manter o equilíbrio entre todos os Pecados, Ravena teria desenvolvido a capacidade de usar o poder de qualquer um deles.

Seus irmãos, por outro lado, careceriam desse treinamento, aprendendo a usar seus poderes por si mesmos. Desta forma, cada um deles teria habilidades empáticas limitadas a uma única emoção (referente ao Pecado que o dominou), mas compensaria a falta de versatilidade com poder bruto concentrado em uma única vertente (e sendo até mesmo mais poderoso do que Ravena dentro de sua respectiva área de especialidade). Depois de entrarem em contato com Trigon, também poderiam ter aprendido com ele a usar melhor seus poderes, incluindo alguns truques que Ravena desconheceria ou magia negra que ela jamais usaria.

Considerações Finais

Certamente isso não cobre tudo sobre o assunto e ainda existem muitas perguntas a serem respondidas e muitos buracos a serem tapados. Talvez minhas explicações não tenham sido das mais satisfatórias e talvez fosse melhor (e mais fácil) se o plot dos Pecados Capitais fosse ignorado (ou desconsiderado) por futuros escritores. Mas lembrem-se: eu não estou sendo pago para resolver estes problemas e Winick foi pago para criá-los. Eu sou apenas um fã que gosta de ler histórias que façam sentido e que não gosta de ver a cronologia sendo maltratada.

Deixem suas opiniões e considerações sobre o assunto. Se houver interesse, posso falar futuramente de meus pensamentos quanto a outros plots ainda mal-explicados (como a ressurreição de Trigon, o motivo de Ravena vomitar quando usa o poder dos Pecados, a explicação para o poder idiota da Inveja, onde os filhos de Trigon estavam todos esses anos e porque eles apareceram só agora...).

10 comentários:

Anônimo disse...

Olá Ed!
Assim como vc sou um fã antigos dos Titãs. Acampanhando-os desde a era Perez e Wolfman.

Vc conseguiu ligar os pontos muitíssimo bem. Não li as duas últimas edições, mas parece que não perdi muita coisa.

Parabéns!!!

Abraços,
Tiago

Tarcísio Aquino disse...

Ei, Ed. Ótimo artigo.
Eu mesmo estava criticando o lance de associar Trigon ao Cristianismo e vi que eu estava enganado. Parabens.
Abraço

thiago disse...

Muito bom mesmo, Ed, tá de parabéns!.
Sobra para acrescentar: A visão dos 7 pecados foi imposta por uma papa (assim como muitas "verdades" sobre a religião católica que não existiam "de verdade" na bíbilia), mas durante muitos anos ele sofreu outras formas de interpretação, como alguns pecados eram visto de outras maneiras e, inclusive, já ouve uma época que era os 8 pecados capitais e não somente 7.

Aliais, hoje em dia são 14 segunda o novo papa lá =P.

Rodrigo B disse...

Muito bom o texto!
Ed, o remendador de furos da DC!
E qundo quiser falar sobre esses outros assuntos... eu vou adorar ler! hehehe

14 pecados? Fale mais sobre isso!

thiago disse...

http://homelupus.weblog.com.pt/arquivo/2007/11/14_pecados_capi.html

http://www.saberebomdemais.com/nao-sao-mais-7-agora-sao-14/

O primeiro é meio que uma dissertação sobre o assunto, comenta a dualidade de quando eles surgiram na idade média e tudo mais, bem legal, o segundo já é um uma reportagem com um ar de crônica e bom humor, ambos bem legais.

Tarcísio Aquino disse...

Ei, Thiago...
Que legal!
Obrigado!

thiago disse...

Que bom que vocês gostaram, quem pode e/ou quiser, procure em alguma biblioteca um livro chamado "Origens Sagradas de Coisas Profundas", lá explica bastante sobre como era a visão do 7 pecados na idade média e por outras civilizações, inclusive mostra o porquê de antes serem 8 pecados: Isso remete a um circulo perfeito (muitas imagens da renascença/iluminismo representavam como um desenho circular composto de 7/8 imagens que se completavam) e antes era visto como uma ordem de "crescencia" entre suas partas, eram chamados de também "7 paixões do homem" que mostrava um grau de ascensão com cada pecado cometido completando esse circulo com as ações do homem. Com isso torna ainda mais plausível e bem feita a explicação do Ed, a Ravena e os outros 3 filhos do Wini...Trigon podem alcançar sem problema todo os 7 níveis sem a necessidade de mais irmãos.

Falando em Grant Morisson: Em Invisibles ele trabalha bem com essa visão antiga do 7 pecados, assim como em Seven Soldiers of Victory, aonde todo os 7 soldades das minis (tirando, nessa caso, o I ,Spider e o Aurackles) tendo, cada um, sendo um representante de 1 pecado e 1 virtude.

Se não me engano isso retira qualquer possível ligação (ou não) com o 7 pecados da pedra da eternidade, uma vez que cada um deles é praticamente uma entidade mistica separada, mais um condensação dessas "paixões" que escaparam do Mago Shazam e dos filhoes dele do que a representação filosófica exata dessa idéia.

Tarcísio Aquino disse...

Cara, muitíssimo interessante. Com certeza irei atrás do livro!
Obrigado, mais uma vez!

Ed Ferreira disse...

Opa!

Obrigado pelos elogios e incentivos. Fico feliz em saber que minhas explicações e pontos de vista foram tão bem recebidos. Pelo visto eu realmente consegui tirar leite de pedra.

Pode ser que as futuras edições do Winick contradigam alguma (ou todas) das minhas teorias, mas se isso acontecer, tentarei modificá-las para que elas se adaptem as novas situações.

Rodrigo, você se enganou, o remendador de furos da DC é o Geoff Johns :)
No máximo eu sou um saceneador de Winicks, já que eu justifiquei em menos de uma semana algo que ele teve um ano pra preparar uma explicação :)

Thiago, é por esse lado mesmo que as coisas vão. Como eu tinha dito, um cara que entenda o suficiente sobre ocultismo (ou que ao menos pesquise o assunto) pode fazer muita coisa interessante com a temática dos Pecados Capitais. Na verdade, um escritor competente poderia fazer coisas legais até mesmo usando os clichês mais batidos que a Cultura Pop possui sobre o tema.

Sandro Victoria disse...

Ed,parabéns pelo artigo. Com certeza,um ótimo remendador( e sacaneador do Winick tb).E continue com esses artigos ótimos.